Alê Youssef, fundador do Acadêmicos do Baixo Augusta, fala sobre sua relação com o Carnaval

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Apaixonado pelo Carnaval desde criança, Alê Youssef é um dos fundadores do Acadêmicos do Baixo Augusta, bloco que teve um papel fundamental na retomada do Carnaval de Rua de São Paulo, participando ativamente desde 2009.

Alê Youssef é ativista, produtor cultural e comunicador, já atuou como fundador e diretor do projeto Studio SP, Studio RJ e o Rivalzinho, projeto de reocupação cultural da Cinelândia no Rio de Janeiro. Hoje, é o atual diretor executivo da Associação Acadêmicos do Baixo Augusta, ONG que realiza o maior bloco de carnaval de rua de São Paulo e mantém o centro cultural Casa do Baixo Augusta. No bate-papo com o Blocos de Rua, ele conta como é sua relação com essa grande festa que cresce cada vez mais em São Paulo.

Blocos de Rua: Como o Carnaval entrou na sua vida?

Alê Youssef: Eu sou um apaixonado por Carnaval desde criança. Acho que o “marco zero” dessa história foi quando minha tia, que era voluntária da Vai-Vai, me levou para ver o desfile da escola de samba. Eu tinha uns 7 ou 8 anos e me lembro de já ter ficado vidrado nisso. Desde então eu participei, acompanhei e torci pela Vai-Vai e também sempre frequentei o Carnaval de rua, principalmente no Rio de Janeiro.

Sempre me interessei muito pelas histórias de Carnaval, especialmente as que mostram como essa festa se mistura com a resistência cultural, com direito à liberdade, democracia e ocupação das ruas.

E, a partir dessa paixão, o que foi que te levou a montar um bloco de Carnaval?

Acho que o que aconteceu foi uma conjunção de fatores. Na época em que a região da Av. Paulista até a Roosevelt e suas paralelas começou a se chamar “Baixo Augusta”, eu e uma turma de empreendedores, moradores, artistas, frequentadores e amantes da região começamos a pensar sobre a ocupação desse espaço. Olhávamos a Augusta e ficávamos imaginando o quão bom seria se a rua se tornasse um grande boulevard de ocupação pública, para que as pessoas pudessem usar culturalmente não só as calçadas, mas todo o espaço em si. Isso nos motivou a criar um projeto para fomentar a ocupação da cidade, e pensamos que isso poderia acontecer por meio do Carnaval, até porque a maioria dessa turma tinha o mesmo vínculo que eu tinha com o evento.

Em 2009, decidimos fundar o Acadêmicos do Baixo Augusta, que na época surgiu como o primeiro grupo organizado a atuar na região. Batalhamos pelo direito de ocupação da rua com arte, cultura e Carnaval, pelo direito ao Parque Augusta e também às expressões artísticas em espaços públicos.

“A ideia de uma São Paulo para as pessoas, de uma cidade mais humana, colorida, e diversa foi o ponto inicial para iniciar esse movimento, unindo esse propósito à paixão pelo Carnaval.”

E você tem um papel muito grande na retomada do Carnaval de rua em São Paulo. Como você enxerga sua participação nesse movimento e o motivo de sucesso dele?

Nós participamos desde o início do movimento aqui na região da Augusta e a Confraria do Pasmado também teve, na mesma época, uma atuação muito expressiva na região da Vila Madalena. O Manifesto Carnavalista foi criado como uma primeira tentativa de articulação de quem tinha esse desejo de direito à cidade e ocupação da rua.

Eu acho as dificuldades que nós tivemos – e foram muitas – só fortaleceram a ideia de um Carnaval mais ativista no sentido de ocupar a cidade. E temos uma honra muito grande em ver tudo isso crescer e florescer, se transformando no maior evento da cidade de São Paulo.

É muito gratificante poder atuar nesse nível na cidade e por isso nós criamos a Associação Cultural Acadêmicos do Baixo Augusta, uma associação sem fins lucrativos, que reúne os fundadores que estavam lá atrás pensando nessa ideia de ocupação da rua e que gerou a Casa do Baixo Augusta, um espaço que tem com objetivo promover a celebração da diversidade, estimular o pensamento crítico e o debate sobre os temas mais importantes do ano.

Você atuou no Carnaval de Rua em diferentes momentos e gestões da cidade. O que você sentiu com relação às melhoras e o que você enxerga que ainda precisa de mais atenção?

Em primeiro lugar, eu acho que a consolidação do Carnaval, está 100% relacionada com o movimento da sociedade civil. O Carnaval de São Paulo é uma vitória da sociedade civil, dos cordões dos blocos, das pessoas que tem o desejo de ocupar a cidade e de realizar a maior festa popular brasileira na maior cidade do país.

Então, independentemente das dificuldades ou facilidades dessa ou daquela gestão, sempre houve um progresso. É óbvio que com o crescimento desse movimento, conquistamos mais espaço e mais força política e o poder público está mais aberto ao diálogo, mas sempre vão existir necessidades de aprimoramento. Lutamos por um Carnaval amplo e com estrutura em todos os lugares.

Defendemos um Carnaval livre, democrático e descentralizado. Livre, porque nós entendemos que todas as pessoas, grupos de amigos, coletivos têm o direito de ter um bloco. Democrático, porque não existe área vip, abadá, camarote e nem privatização do espaço público. E descentralizado, porque ele deve acontecer na cidade inteira, em todas as regiões, em vários trajetos, espalhado e com a maior capilaridade possível. Esse é o modelo que nós defendemos e queremos aprimorar, ano após ano.

Desfile do Acadêmicos do Baixo Augusta em 2018

Desfile do Acadêmicos do Baixo Augusta em 2018

 

Você sente que a qualidade do Carnaval melhorou, nos últimos anos do ponto de vista dos foliões?

Olha, eu acho que a estrutura e organização ainda não acompanhou suficientemente o crescimento do Carnaval e o desejo dos paulistanos e brasileiros de fazer acontecer essa festa. Batalhamos para conseguir uma maior infraestrutura, capaz de dar vazão à essa quantidade de pessoas e à essa mega manifestação que o Carnaval de São Paulo se tornou. Mas estamos sentindo uma mudança considerável com a gestão atual, que parece entender essa característica que o Carnaval da cidade possui e temos conseguido mais espaço para o diálogo. Estamos bem otimistas com relação ao planejamento do Carnaval 2019.

E falando em Carnaval 2019, quais são as expectativas e planos do Baixo Augusta para o ano que vem?

O Baixo Augusta irá comemorar 10 anos em 2019 e estamos preparando uma espécie de desfile instalação, ou seja, que irá combinar Carnaval e artes visuais e performáticas, com uma série de atos durante o desfile, reunindo expressões culturais marcantes da região que misturam ativismo, criatividade e cultura alternativa, tudo isso simbolizado através do Carnaval!

E como folião, o que o Alê espera?

Eu espero poder passear pela cidade e descobrir, rua após rua, trajeto após trajeto, bloco após bloco, manifestações de liberdade que representam tão bem São Paulo. Também espero que a gente mantenha esse espírito contestador, transgressor, espontâneo que está tão vinculado ao nosso Carnaval, que cada vez mais busca uma cidade mais humana, colorida e diversa – que no final das contas é o que todos nós desejamos.


Nós também desejamos que essa grande festa seja cada vez mais uma festa de todxs! Mas, enquanto o tão esperado Carnaval não chega, aproveite para conferir nossa programação, ou baixe o aplicativo Blocos de Rua disponível para iOS e Android, e tenha o melhor dessa energia carnavalesca o ano todo!