Casa Comigo: o bloco queridinho dos solteiros e noivinhas paulistanas

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Fernanda Toth, Marcel Mangione, Raphael Guedes e Raul Neto. Graças à esse quarteto, nasceu um dos blocos mais conhecidos do carnaval de São Paulo, que arrasta milhões de foliões no pré-carnaval da Faria Lima. Para conhecer melhor essa história, conversamos com Raul Neto, um dos fundadores do Bloco Casa Comigo, o mais querido das noivinhas e noivinhos de Sampa. Confira!

Blocos: Como o Carnaval entrou na sua vida?

Raul: O Carnaval sempre esteve presente. Meus pais tiveram uma relação muito forte com o carnaval e me levavam para as festas e bailes desde criança. Quando eu tinha uns 20 e poucos anos, morei no Rio de Janeiro à trabalho. Fiquei lá por 5 anos e foi aí que comecei a ir para a rua e fazer parte dos blocos de carnaval tocando. Quando voltei a morar em São Paulo, em 2012, a primeira coisa que eu imaginei foi montar um bloco de rua.

O que te levou a fundar um bloco de Carnaval? Conte para nós um pouco da história do bloco.

Quando voltei para São Paulo, morava na Vila Beatriz, e mais dois amigos meus também moravam lá. A gente tinha o costume de se encontrar sempre pra tomar uma cerveja no bar e ficar compondo juntos. Sempre compartilhamos o interesse por eventos de rua e, já que a nossa era super tranquila, tivemos a ideia de começar a abrir a garagem para colocar um som e fazer uma festa para a vizinhança. Em uma dessas festas, resolvemos que iríamos fundar o primeiro bloco da Vila Beatriz.

Na época, nosso grupo de amigos eram solteiros convictos. Ficamos brincando sobre a questão dos amores de carnaval e como todo mundo dá um jeito para “se livrar” do relacionamento sério nessa época para poder curtir ao máximo. Vieram os nomes “Não é você, sou eu”, “Bloco dos desavisados”, até que chegamos no “Casa comigo”, porque no fundo todo mundo quer casar no carnaval e se separar na quarta-feira de cinzas (risos)! Tudo foi muito nessa brincadeira, com base nessa ironia de carnaval.

Nosso grupo de amigos se uniu para realizar essa ideia, chamamos outros amigos, já tínhamos os padrinhos do bloco e, antes de ir para a rua, fizemos alguns ensaios com uns instrumentos que eu tinha em casa, até chegar a data da festa de fato.

Nessa época, já estava acontecendo o “boom” do Instagram. Algumas amigas nossas vieram vestidas de noivinhas e começaram a postar fotos usando a hashtag #casacomigo. As fotos começaram a atrair a atenção das pessoas, que iam lá ver o que estava acontecendo, foi aí que as coisas tomaram uma proporção muito maior do que esperávamos.

Tínhamos alugado um banheiro, mas não era suficiente e tivemos que abrir a porta das nossas casas para o pessoal poder usar e não fazer xixi na rua. Logo nesse começo, já começamos a aprender e enxergar que o carnaval era uma demanda reprimida. As pessoas já queriam curtir o carnaval há tempos, mas parece que não tinha onde dar vazão para essa vontade. Os vizinhos até ficavam “nossa, mas por que vocês estão fazendo isso?”, “vocês estão ganhando dinheiro com isso?”, e na verdade não, a gente estava gastando grana do próprio bolso para fazer o negócio acontecer. Não imaginávamos que ia tomar essa proporção.

E vocês tiveram algum contato com a prefeitura para realizar esse evento?

Na época não tinha esse tipo de preocupação, mas tivemos o cuidado de ver direitinho a questão das regras de trânsito e avisamos a CET. Depois que um aglomerado grande de pessoas se formou, a polícia apareceu, mas a resposta foi super positiva. Eles deixaram a viatura parada na transversal para impedir que outros carros passassem pela rua.

Tivemos uma boa aceitação desde o começo, inclusive dos vizinhos. Nós sempre tivemos na cabeça de que se quiséssemos fazer uma coisa legal, era preciso cuidar do espaço público, porque sabíamos que se não deixássemos as ruas impecáveis depois do bloco, ia vir aquele julgamento do tipo “ah um monte de baderneiro que só quer fazer farra” (risos). Recolhemos as latas e oferecemos para catadores, lavamos a rua inteira e isso fez com que ficássemos blindados de qualquer tipo de reclamação.

Como foram os anos seguintes, depois dessa grande estréia?

Por mais dois anos depois da criação, tocamos na Vila Beatriz, lá nós éramos um bloco parado. O bloco foi crescendo, mas foi crescendo de forma natural, nunca foi uma coisa pensada. Começamos a perceber que o apelo popular era grande e aquela festa de amigos, já não funcionava no mesmo formato. A Vila Beatriz ficava muito cheia e intransitável e foi aí que migramos para a Faria Lima e efetivamente o carnaval de São Paulo tomou uma proporção maior em 2016.

E o que você atribui a esse crescimento de interesse por parte do público?

Os foliões sempre existiram, mas estavam adormecidos. Podemos pensar em diversas hipóteses sobre por que o carnaval de rua de São Paulo ficou adormecido. Houve um momento em que o negócio desapareceu e passou-se a ter a ideia de que o carnaval não é em São Paulo, é em outro lugar, lá no Rio ou em Salvador.

O que faltava era uma organização e uma vontade de ir para a rua e tomar esse espaço que era de carros. Antes desse movimento, a gente não via a possibilidade de fazer alguma coisa na rua. Parecia que era proibido. No período de 2014, 2015, talvez pelo fato do Brasil receber grandes eventos como a Copa do Mundo, Olimpíada, a mentalidade do poder público mudou e o diálogo ficou um pouco mais aberto para receber eventos em espaços públicos e não em privados, como as coisas era feitas tradicionalmente em São Paulo.

Quais são suas expectativas para o Carnaval de 2019?

Eu acredito que o carnaval de São Paulo já está pronto para receber apoio de marcas e corporações que querem investir em coisas legais para os foliões e para a cidade. Infelizmente ainda vemos pouco movimento nesse sentido. Parece que as marcas ainda pensam “vamos investir no carnaval de Salvador, porque tem o camarote, ou “vamos investir no Rio”, por causa da Sapucaí.

Mas acho que o carnaval de rua de São Paulo, no próximo ano, já irá contar com muito mais abertura e coisas legais e interessantes pela cidade, como instalações, palcos, para ajudar os blocos da cidade a crescerem e permanecerem incríveis.


E a gente também espera que essa grande festa continue crescendo e ganhando cada vez mais apoio, melhorando a cada ano!