Bloco Ritaleena: feito por mulheres e inspirados na eterna musa Rita Lee

Notícias

Vida Live
Vida Live

Lançando todo o perfume desbaratinado, o bloco Ritaleena, como descreve uma das fundadoras, é “uma força da natureza feminina”. Composto quase que inteiramente por mulheres, o bloco fundado por Alessandra Camarinha e Yumi Sakate arrasta gerações de fãs da Rita Lee por São Paulo, tocando os hits da cantora em forma de marchinhas. O Blocos de Rua conversou com as idealizadoras para conhecer um pouco dessa história.

Blocos: Como o Carnaval entrou na vida de vocês?

Yumi: Desde que eu nasci, praticamente, o Carnaval já estava na minha vida (risos)! Quando eu era criança ia nos carnavais de clube, no interior de Botucatu, e os anos em que eu não pulavam eram tristes (risos). Eu também fazia parte da turma de meninas folionas. Alessa (co-fundadora do bloco) incluída, e íamos muito para o Rio, porque, até então, pular Carnaval em São Paulo não era algo comum.

Alessa: A gente começou a frequentar o pré-carnaval de São Paulo, quando ainda era muito pequeno e, pelo fato de eu ser musicista, muitos amigos músicos tocavam em bloquinhos da Vila Madalena, então começamos a acompanhar eles tocando e vivenciando a festa no bairro.

Leia também: Tarado Ni Você: conheça a história do bloco que homenageia Caetano Veloso

Veja também:
Agenda de Blocos SP: confira datas e horários dos Blocos de Carnaval de Rua de São Paulo
Lista de Blocos SP:  confira a relação com todos os Blocos de Carnaval de Rua São Paulo

E o que motivou vocês a criar um bloco?

A: Quando íamos para o Rio de Janeiro, sempre pensávamos “porque não tem isso em São Paulo?”, e a gente sempre ficava com vontade. No Rio tem tanto samba e Carnaval, e a gente ficou pensando em como isso poderia acontecer em São Paulo. Além disso, pensamos no papel da mulher, afinal a maioria dos organizadores dos blocos eram homens a gente ficava com vontade de se organizar e participar também.

A: Na busca por qual seria o símbolo do nosso carnaval paulista, a figura da Rita Lee surgiu integrando todos os atributos: de cantar a cidade, de um jeito feminino e com muito humor. A música da Rita é muito bem humorada, debochada e com uma certa malícia que é muito carnavalesca. Ficamos apaixonadas pela ideia! Quando fomos atrás do repertório dela, ficamos abismadas, porque só de hit tem muita coisa. São muitos anos de carreira e mesmo que você ache que não conhece o título, você reconhece a letra e música na hora (risos)!

A: Pelo fato de eu ser musicista, e a Yumi ser figurinista/cenografista, nos dividimos. Eu fiquei responsável pela parte musical e ela pelas fantasias e cenário. Olhamos para nossa ideia e falamos “cara, a gente consegue fazer isso!”, e decidimos fazer um teste. Nos cadastramos na prefeitura para sairmos em Pinheiros, em 2015, e escolhemos o trajeto da Rua dos Pinheiros, porque a Vila Madalena estava ficando muito cheia. No cadastro, fomos super ingênuas, colocamos 200 pessoas para a expectativa de público (risos), e no dia foi uma loucura! Apareceram entre 5 e 7 mil pessoas no nosso primeiro desfile.

A: Sinto que nós entramos na hora certa no Carnaval de rua, no momento de maior crescimento. E acredito que por ter a figura da Rita Lee, uma pessoa muito querida, com fãs de todas as idades, tudo se somou. A Rita foi muito importante para as mulheres dos anos 80, com seu discurso feminista. Ela representa uma época de liberdade sexual e financeira para a as mulheres, e isso formou um público muito fiel, que ama ela e vem para nos seguir. Tem gente que vem de outros estados ver o bloco.

E como foi tirar os planos do papel?

Y: Naquela época (2014/2015), alguns blocos estavam fazendo campanhas de financiamento e nos pareceu uma opção viável. Também procuramos patrocínio, mas não tínhamos muito conhecimento de como funcionava o Carnaval. Fizemos uma pesquisa de custo para saber quanto precisaríamos para fazer o desfile, como o aluguel do carro de som e tudo o que fosse preciso para sair para rua.

Y: Fizemos o financiamento para cobrir os gastos do bloco e foi o maior sucesso. Vimos que a ideia foi comprada por todo mundo, antes mesmo de a gente sair. Pensamos em campanha, memes, e foi bem doido porque nunca tínhamos feito um financiamento coletivo. Hoje, acho que não daria muito certo, até porque os blocos estão conseguindo patrocínio e as próprias empresas estão olhando para o Carnaval com outros olhos.

Y: O financiamento coletivo do Catarse nos ajudou a pagar o carro de som e o cachê dos músicos. Nós fomos muito na guerrilha, e até hoje vamos. Temos muitas amigas que ajudam a fazer essa estrutura funcionar.

Como é ser uma mulher ativa no Carnaval em meio a tantos blocos fundados por homens?

A: O nosso bloco é praticamente todo composto por mulheres. Temos uma banda composta por 5 mulheres e 4 homens, a corda é inteiramente composta por mulheres. O Ritaleena é uma força da natureza feminina. As mulheres estão presentes em tudo, desde segurar as cordas até distribuindo cerveja. Toda produção é feminina e tentamos garantir que todo público feminino se sinta confortável.

Y: Eu acho que como em todos os lugares vemos uma predominância masculina, temos o trabalho de construir o nosso lugar. Muitos blocos vem da área de eventos e as pessoas já tem o know-how de como fazer eventos. Nós fomos atrás, para aprender a como fazer as coisas e abrir espaço para as mulheres. Basicamente, é como ser mulher na sociedade, temos que abrir nosso espaço e às vezes falando firme, para não sermos engolidas pela onda de vozes masculinas que vem por cima.

Vocês saíram do percurso de Pinheiros, como foi isso?

A: Desde 2017, tentamos descentralizar o Carnaval, e tem sido muito positivo. Antes, quando saíamos em Pinheiros, o final do bloco se misturava com outros blocos que estavam pelo Largo da Batata e, desde que mudamos o circuito, percebemos que o clima do desfile melhorou muito, diminuindo os assédios e mantendo o público com a gente até o fim. Até porque, o Ritaleena não é um bloco de pegação, é um bloco composto por fãs, tem muita família, gerações que vão com a gente pela música da Rita.

A: Antes, a gente só saía no pré-carnaval, e há dois anos saímos no pré e durante o Carnaval. E durante o Carnaval, a cada ano fazemos o desfile em um bairro novo. No primeiro ano (2017), saímos na Aclimação, e em 2018 fizemos no Ipiranga, o que resultou em um clima mais família ainda.

A: Tentamos garantir, também, que o Carnaval não fique só para a “galera descolada” da zona oeste, fazendo a nave da Rita Lee rodar em São Paulo inteira. Claro que isso demanda bastante esforço, já que a cada ano lidamos com uma Subprefeitura diferente. Mas a ideia é essa, descentralizar e buscar outros públicos.

Vocês tem alguma história marcante com os foliões?

A: No último desfile, no Ipiranga, no final do dia uma moça muito emocionada veio até a gente, chorando, e começou a nos agradecer. Ela contou que fazia onze anos que não pulava Carnaval de Rua. Foi muito gratificante, porque ela pôde viver a rua, por meio da Rita Lee, de uma maneira mais próxima à ela. Para gente, isso dá muito trabalho, mas apostamos nisso, de nos aproximar de pessoas que não vão para a Zona Oeste.

A: O mais bonito do Ritaleena, para mim, é esse corte intergeracional que ele tem. Tem muitos relatos de pessoas mais velhas que vão no bloquinho e conseguem aproveitar o Carnaval. Você tem as tias loucas do rock, as mães e filhas curtindo, e todas essas mulheres que curtem, porque a Rita fala com todas as mulheres.

Quais as expectativas para o Carnaval 2019?

Y: O Carnaval de São Paulo, apesar de ter essa coisa mais burocrática que você não vê nas outras capitais, que, a princípio pode assustar, tem democratizado o movimento e tem dado a possibilidade de movimentos carnavalescos e suas expressões em outros bairros se organizarem também. Participar dos fóruns e da organização tem sido muito interessante e eu vejo que, mesmo com todas as regras, o movimento nunca deixará de ser espontâneo. Ele só vai se tornando mais organizado. É um movimento que tem dado muito certo tanto para quem faz, quanto para quem curte.

A: Eu espero uma diversão em que as pessoas possam aprender o que é liberdade, o direito à cidade, poder sair com a roupa que quiser e estar lá se divertindo e experimentando a cidade junto com outras pessoas e, obviamente, com muito respeito. O direito à rua é uma conquista das mulheres, porque desde sempre a rua foi majoritariamente dos homens. O nosso carnaval dá às mulheres o direito à rua.


Depois dessa entrevista, estamos ainda mais ansiosos para o Carnaval 2019! E também esperamos um Carnaval com mais respeito e menos assédio, para a mulherada poder aproveitar de boa pelas ruas de Sampa.